Assistimos da parte das igrejas que se intitulam de "evangélicas" ao substancial aumento da incidência de testemunhos sobre o ‘inferno’, estranhamente muito superiores em numero aos testemunhos sobre o 'céu', uma vez que pretensamente este é o local que estas igrejas desejam levar o maior número de pessoas possível.
Acredito que tal fato deva-se a duas justificativas: primeira, a facilidade de divulgar-se tais conteúdos nos ambientes virtuais de hoje (blogs, sites, youtube e mídias similares) aliada a tendência do ser humano em ter atraída sua atenção aos temas da autodestruição... o velho mondo cane... a segunda é a manipulação psicológica da religião para manter e fortalecer o medo do inferno como motivação para render-se a salvação que lhes é oferecida por ela.
Entretanto em uma avaliação mais apurada e no confronto com a bíblia percebemos que nada que nasce do medo tem valor espiritual para Deus, posto que só aquilo que é movido por amor (ao próximo e à Deus) é quem possui validação divina. Não se encontra no NT passagem alguma que valide o medo como motivação plausível para qualquer coisa na vida cristã. Tal expediente de ‘evangelização’ renuncia ao mais básico da mensagem da salvação, que é o amor do Pai pelo ser humano, substituindo-o pel o expediente do medo, assim como os deuses das mitologias pagãs.
Render-se ao Pai pelo Seu amor que nos constrange, é quem traz o bônus da libertação de um hipotético 'inferno' e nunca o contrário. Onde existe o medo não há ambiente para a fé e a esperança, e em especial ao amor, que é quem o anula. Entretanto quando o medo é a tônica, este sempre gera ambientes onde a manipulação e a falta de liberdade imperam. E criam monstros novos todos os dias para aterrorizar e manter cativa a alma, sem perspectiva da verdadeira liberdade em Cristo.
E o que o medo gera? Na parábola dos talentos (Mt.25) o servo que escudou-se no medo para justificar sua ineficiência na administração da quantia que lhe foi confiada, e foi castigado pelo seu senhor porque o medo não o deixou usar a cabeça colocando o dinheiro a juros no banco.
Quando a mulher com fluxo de sangue em um ato de coragem tocou as vestes de Jesus (Mc. 5) e foi curada, se atemorizou quando o Mestre a procurava pois percebeu que alguém O tocou de maneira diferente... talvez seu medo se justificasse pois até então o deus a quem ela foi apresentada era irado e justiceiro... e para fazer tal milagre aquele cara só podia ser Deus ... e se ele fosse um deus como aquele que lhe apresentaram, mesmo com os muitos sinais de compadecimento dele com o sofrimento do povo... mas era preciso tentar e confira que esse Deus encarnado era diferente... poderia haver amor em seu coração para curá-la... e só depois de algum tempo, onde provavelmente um turbilhão de pensamentos passou pela sua cabeça, tomou coragem e apresentou –se, saindo abneçoada pelo seu ato de fé em acreditar que Ele era bom e amoroso o bastante para curá-la.
Jesus em sua explanação sobre a ‘ansiosa solicitude pela vida' (Lc. 12) versando sobre o excessivo zelo humano em prover por seus próprios esforços sua sobrevivência na terra, associa a existência dessa ansiedade ao medo, quando exorta: NÃO TEMAIS, ó pequenino rebanho...
O que dizer então das cartas de Paulo como por exemplo, Romanos 8:15 e 2a. Timóteo 1:7 ? A carta aos Heberus 2:15 afirma que o medo da morte (que oculta a incerteza humana sobre o destino de nossas almas) nos conduz a uma vida de escravidão. Portanto só quem reconhece e aceita o amor do Pai pode viver sem medo da vida e da morte.
Por este motivo os apóstolos não dissociam a revelação do amor do Pai a decisão da conversão voluntária.
Ninguém se rende a Jesus verdadeiramente até ser convencido até as entranhas que o contexto do pecado, da justiça e do juízo foram resolvidos pelo Seu amor levando o Seu Filho à cruz!
Tais “testemunhos infernais” seguem o princípio da "isca": prometer algo que atraia a atenção de uma alma quanto às suas carências para fisgá-la, envolvendo-a em uma teia de doutrinas e promessas na expectativa de um milagre que premie seu medo de Deus, da vida e da morte, alijando o principal componente da conversão revelada nos textos bíblicos -o amor do Pai- do processo.
A nova criatura em Cristo não emerge do doutrinamento puro e simples, ela nasce da compreensão e aceitação do amor do Pai em ter enviado Cristo a morrer pelos seus pecados e a partir disso, essa pessoa como resposta voluntária, afirmativa e compromissada com esse Pai amoroso procura moldar sua vida e seus valores aos princípios do Reino, que tem dois parâmetros de balizamento para andarmos nele: ao amor ao Pai e o amor ao próximo.
Como conseqüencia desse processo natural e não forçado, há uma profusão invisível de vidas restauradas, os casamentos refeitos e curas, muito maior que as espetaculosas campanhas e cruzadas... como o marketing é o “espirito santo” da modernidade, a divulgação desses resultados relevantes e amplamente favoráveis a prática cristã introspectiva e contemplativa não existe, só existe aquilo que é contabilizável pela instituição eclesial com seus eventos e movimentos.
Mas Deus, este sim, sabe de tudo isso...
Enfim, a coisa toda é bem mais profunda que um simples levantar de mão e recitar uma oração de entrega da vida à Jesus, sob que tipo de pregação do evangelho qual seja e é ainda mais comprometedora que a assimilação de doutrinas e adestramento comportamental para parecer "crente"... a radicalidade que a igreja propõe para se viver a vida cristã em uma vã tentativa de impactar o mundo com elevados conceitos morais e éticos tendo como base a bíblia, choca-se frontalmente com aquilo que Cristo afirmou categoricamente em sua oração sacerdotal seria a força que convenceria o mundo de Si e da veracidade de seu ensino – o amor entre os irmãos.
Infelizmente no meio evangélico esse pedido de Jesus que “nos amássemos”, com muita facilidade vira “que nos amassêmos” e caímos no octógono teológico... ou ringue, se você gosta de boxe.
Nem de perto a grande maioria das pregações de hoje apresentam a proposta divina que escancaradamente convida ao homem a fazer: uma declaração de falência pessoal à Deus e ao mundo, num ato de rendição incondicional ao Amor divino, passando a viver nesse mundo como peregrino sem se afatigar em juntar tesouros que perecem, vivendo em paz entre dois mundos que se contrapõem, sendo incompreendido porém sustentado pela Graça do Pai, manifestando as principais credenciais do Reino como seus embaixadores: amando a todos. Só assim o mundo saberá que Ele veio e vive!





